A moça andava em seu riso mudo e delicado enquanto era observada. Nada fora do comum, pra quem sempre fora seguida por olhos atentos e segundas intenções, mas isso não importava a ela. E quando ela via alguém encará-la de frente tentava ocultar a delicadeza exposta.
Ela pensava em sua silenciosa solidão que nunca deixou de acompanhá-la. Depois que perdera todo o afeto a que lhe era destinado por situações que não diziam respeito a ela, ela seguia mais uma vez, com aquele brilho introspectivo e vitorioso. Ela sabe do que está escrito no livro de seus passos, ele segue o seu manual e continua no trilho que lhe é destinado. Não perde uma página sequer mas às vezes para no meio de um passo e fica ali, segurando a ventania externa que tenta extinguir a existência de seu destino. E depois de parar ela segue. Um passo á frente, sempre, as vezes mais passos do que o enredo lhe pede, mas seu futuro só tem uma direção, à frente.
Dessas paradas repentinas a última foi a pior de todas. Sua mãe que mais queria o sangue do seu pescoço do que o seu bem levou a moça à loucura e ela só conseguiu retornar alguns anos depois. Música, movimento, arte, talento, tudo congelado. O peso da moça aumentou com tudo isso sendo congelado e tendo que ser vivido no íntimo dela ela digeria e aumentava a sua necessidade de escrever, cantar e se movimentar dentro de si. E a sociedade que não se preocupa nem em ver o interior de seus eletrodomésticos convencionais não viu a moça brilhando. Quem só consegue ver o exterior teve uma ligeira impressão que ela decaía. Mas o que é verdadeiro nunca morre, e ela apesar de congelada ardia em tons de vermelho dentro de si.
A moça já tinha encontrado seu destino, sua trilha artística, suas palavras, faltava uma coisa, o motivo de seu incêndio. O ingrediente de sua vida que faltava era ele. Aquele que com sua persistência e ardor quis tomá-la e acordá-la de sua cova fria, aquele que quis para si a presença e o fogo dela. E a machucou até ela perceber que o fogo que derretia sua pele não doía mas trazia ela de volta à vida.
Então a moça segue seu destino, com o acolhimento do fogo eterno e a solidão do seu interior. Do seu lado um rei, em seu caminho o tapete real, e em seu coração o incêndio que vai acompanhá-la para todo o sempre. Música, movimento e ouro retornam aos seus lugares. E a moça retorna ao seu posto, Carmem, Mary Poppins, Bela, Sofia, Lúcia, Lucy Nyu, Khaleesi, as mesmas personagens em histórias diferentes, em focos diferentes, a moça. E quem mais seria? Nenhuma farsa, só a moça A personagem.
Nenhum comentário:
Postar um comentário